A compreensão sobre a evolução geográfica, o uso do solo e as dinâmicas socioeconômicas do nosso estado acaba de ganhar um marco fundamental. Um estudo inédito, conduzido por pesquisadores do Departamento de Análise Geoambiental do Instituto de Geociências da Universidade Federal Fluminense (UFF), realizou um inventário minucioso de quatro décadas (1984–2024) de modificações na zona costeira do Rio de Janeiro.
O levantamento analisou uma extensão de aproximadamente 21.980 quilômetros quadrados da faixa litorânea fluminense. Embora a maior parte do território apresente uma estabilidade aparente, as pressões históricas do crescimento urbano desordenado, do desmatamento e da degradação ambiental criaram severos hotspots de instabilidade. No Norte Fluminense, por exemplo, os dados apontam que 25% da zona costeira encontra-se em situação instável, somando cerca de 1.916 km² que demandam atenção urgente do planejamento público.
Território, História e Planejamento
O mapeamento histórico dessas transformações dialoga diretamente com muitas pesquisas sobre a ocupação do espaço fluminense. Os dados evidenciam como o avanço desordenado sobre as franjas costeiras e as baixadas litorâneas repete um padrão histórico de expansão que desconsidera as características biofísicas do território.
A pesquisa utilizou imagens de satélite e índices avançados de vegetação (NDVI) para cruzar dados de relevo, solo e uso da terra. Na Costa Verde, o relatório acende um alerta ao registrar a perda de 16,3% das áreas de restinga e de 47,8% das áreas úmidas no período analisado — ecossistemas fundamentais que atuam como amortecedores naturais contra as ressacas e a erosão. No município de Maricá, o avanço da impermeabilização do solo sobre áreas de vegetação nativa desestruturou a proteção de encostas, agravando os riscos de escorregamentos.
Caminhos para a Gestão Pública e o Ordenamento Territorial
O grande valor desse diagnóstico, além do rigor metodológico, está na sua capacidade de subsidiar políticas públicas de ordenamento urbano e justiça socioambiental. Para frear o avanço da degradação nos pontos críticos apontados, o estudo sugere diretrizes como centrais para o futuro das nossas cidades, tais como planejamento urbano integrado com a utilização dos dados geoambientais para a revisão dos Planos Diretores municipais, estabelecendo limites claros para a expansão imobiliária em áreas de risco; preservação e memória ambiental, visando o rigor no cumprimento do Código Florestal, garantindo a integridade das Áreas de Preservação Permanente (APPs) e das zonas de amortecimento e uma infraestrutura Verde, com Incentivo a soluções baseadas na natureza e técnicas de bioengenharia (como o replantio de vegetação nativa e manejo de taludes) para a contenção e recuperação das áreas degradadas.
O IERJ reforça que entender os ciclos de ocupação e as transformações geográficas dos últimos 40 anos é o único caminho para projetar um Rio de Janeiro economicamente viável, socialmente justo e ambientalmente resiliente diante dos desafios climáticos contemporâneos.
Informações completas em:
www.uff.br



