Pesquisa da Antropologia Social mostra como o sagrado afro-brasileiro está presente na estrutura do Carnaval carioca
Por Tassia Menezes (site UFRJ)
O Carnaval de escolas de samba do Rio de Janeiro tem se mostrado, desde sua construção, como um espaço de produção artística e cultural que se relaciona diretamente com as religiões de matriz africana do Brasil. O fato se reforça, historicamente, a partir de grandes enredos que se apoiam em histórias, personalidades, costumes e divindades relacionadas a esses grupos. É o caso, por exemplo, do desfile de 1978 da Beija-Flor de Nilópolis com o enredo A criação do mundo na tradição nagô, que abordou narrativas de origem iorubá sobre o surgimento do universo. O mesmo aconteceu a partir do que o Acadêmicos do Salgueiro apresentou na avenida no ano de 1969 com o tema Bahia de todos os deuses, que venceu abordando o encontro entre orixás e santos católicos ocorrido no estado baiano.
Décadas depois, a história segue o mesmo ritmo. Afinal, pelo menos um terço dos enredos que serão apresentados na Sapucaí pelas agremiações do Grupo Especial no ano de 2026 trata diretamente de religiosidades afro. É o caso do candomblé baiano mostrado pela Beija-Flor com o enredo Bembé do Mercado, que trata de uma celebração que acontece há mais de 100 anos na cidade de Santo Amaro, na Bahia. Há ainda um destaque dado ao Ifá cubano, que a Paraíso do Tuiuti apresenta em Lonã Ifá Lukumi; e ao batuque do Rio Grande do Sul, que a Portela traz em O mistério do príncipe do Bará, no qual mostra a negritude do estado gaúcho. Esse caminho não é seguido apenas por essas escolas, no entanto. No ano passado, a Unidos da Viradouro venceu a disputa com o enredo Arroboboi, Dangbé, que tratava de uma divindade serpente cultuada no Benin, na África, pelos fon. Já em 2022, o orixá Exu foi o personagem principal do enredo Fala Majeté! Sete Chaves de Exu, coroado como vencedor em desfile realizado pela Acadêmicos do Grande Rio.

Esses dados mostram que a relação com o sagrado de matriz africana é mais do que uma alegoria nas narrativas carnavalescas cariocas, indo além de apenas referência estética e se mostrando também como base do cotidiano daqueles que pensam e constroem estes espetáculos. Esse movimento é ainda mais reforçado a partir de teses como a de doutorado defendida em 2025 por Sthefanye Silva Paz, no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional (MN/UFRJ), intitulada Enredos, funções e trabalhos: produção carnavalesca e práticas religiosas no barracão da Mangueira. Nela, a pesquisadora mostra como acompanhou a produção da Estação Primeira de Mangueira entre os anos de 2019 e 2024, compreendendo de que forma o Carnaval das escolas de samba do Rio de Janeiro mantém uma relação orgânica e prática com religiões afro-brasileiras, especialmente o candomblé.
Ao longo do período dos cinco carnavais em que empreendeu sua pesquisa etnográfica, sua relação com a escola fez com que ela se tornasse também pesquisadora de enredo da Mangueira, enfatizando o seu aprofundamento nos acontecimentos cotidianos. Essa presença levou Stefhanye a compreender que as temáticas que surgem na avenida têm uma origem mais profunda, ligada à maneira em que o sagrado está presente na estrutura que organiza o Carnaval carioca, principalmente ao observar o âmbito da escola verde e rosa.

“Mesmo quando as narrativas abordam temas aparentemente seculares, diferentes dimensões do sagrado permeiam a produção carnavalesca”, explica a autora em sua tese, ressaltando que esse encontro pode se desenvolver de diferentes formas, desde rituais específicos de proteção até formas próprias de interpretar os acontecimentos na avenida. Para Stefhanye, sua pesquisa não contribui apenas para pensar o Carnaval ou as religiões de matrizes africanas, mas em especial “para debates mais amplos sobre as relações entre religião e cultura na sociedade contemporânea”, conclui.



