O cenário energético do Estado do Rio de Janeiro inicia o segundo trimestre de 2026 sob forte pressão. A partir deste domingo (15), entram em vigor os novos reajustes tarifários aprovados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) para as duas principais distribuidoras do estado: Light (8,59%) e Enel Rio (15,46%).
Diferente de anos anteriores, o processo foi conduzido via rito simplificado, sem a realização de audiências públicas. Para os setores produtivos e institutos de análise, a ausência de participação social neste ciclo dificulta o debate sobre os componentes estruturais que tornam a conta de luz no Rio uma das mais onerosas do país.
O Impacto na Ponta da Produção
Embora o efeito médio para os consumidores residenciais da Light tenha sido de 6,56%, o setor produtivo — motor da economia fluminense — sentirá um impacto significativamente maior.
- Alta Tensão (Indústrias): Na área da Light, o aumento chega a 13,46%.
- Serviços e Comércio: Pequenos negócios, bares e restaurantes — dependentes de refrigeração e climatização constante — absorverão reajustes de 6,56% (Light) a 14,07% (Enel).
De acordo com dados da Aneel, o reajuste médio nacional para 2026 está projetado em 8%, praticamente o dobro da inflação prevista (IPCA de 4,1%). Essa desconexão entre os índices de preços e o custo da energia revela que o problema não é inflacionário, mas regulatório.
A CDE e o Peso dos Encargos
O principal vetor de pressão continua sendo a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE). O fundo, alimentado pelos consumidores, financia desde subsídios para fontes renováveis até a Tarifa Social. Segundo o diretor-geral da Aneel, Sandoval Feitosa, enquanto o IPCA subiu cerca de 129% desde 2011, os encargos setoriais dispararam 300% no mesmo período.
Para a indústria e o comércio, esse modelo de “subsídio cruzado” retira a previsibilidade do planejamento financeiro e reduz a margem de reinvestimento no estado.
A “Bolha” dos Créditos Tributários: O Risco de 2027
Um elemento crítico apontado no processo tarifário da Light é o impasse jurídico sobre créditos tributários. Até 2025, a distribuidora devolveu via tarifa cerca de R$ 5,86 bilhões aos consumidores. No entanto, o montante habilitado pela Receita Federal é de R$ 5,26 bilhões.
O relator do caso na Aneel, Gentil Nogueira, alertou para a formação de uma “bolha financeira”. Caso a decisão administrativa final não favoreça o entendimento atual, os consumidores poderão ter que devolver esses valores nos próximos anos. Projeções preliminares da concessionária indicam que o reajuste de 2027 pode atingir 37,6%, a depender do desfecho dessa disputa.



